Voltar ao Blog
    Direito Previdenciário

    STF analisa critérios de gratuidade na Justiça do Trabalho após reforma

    22 de maio, 2026
    Motaadv
    STF analisa critérios de gratuidade na Justiça do Trabalho após reforma
    Tempo de Leitura: 4 minutes

    Introdução

    O Supremo Tribunal Federal retomou o julgamento de uma das questões mais sensíveis do Direito do Trabalho pós-reforma: os critérios para concessão da gratuidade de justiça. A discussão, travada no âmbito da ADC 80, proposta pela Confederação Nacional do Sistema Financeiro (Consif), coloca em xeque a compatibilidade constitucional dos parágrafos 3º e 4º do artigo 790 da CLT, alterados pela Lei 13.467/2017. O debate central gira em torno da necessidade de comprovação da hipossuficiência econômica versus a suficiência da mera declaração de pobreza para obtenção do benefício.

    A relevância do tema transcende o aspecto processual, tocando diretamente no princípio constitucional do acesso à justiça, previsto no artigo 5º, XXXV, da Constituição Federal. A reforma trabalhista introduziu critérios objetivos para a concessão da gratuidade, estabelecendo como parâmetro o recebimento de salário igual ou inferior a 40% do limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social, atualmente equivalente a R$ 3.390,22.

    A evolução normativa da gratuidade processual trabalhista

    Antes da reforma trabalhista, a concessão da justiça gratuita na esfera laboral seguia orientação mais flexível, baseada principalmente na declaração de hipossuficiência do trabalhador. A Lei 13.467/2017 alterou substancialmente esse panorama, introduzindo critérios objetivos e mais restritivos nos parágrafos 3º e 4º do artigo 790 da CLT.

    O parágrafo 3º estabelece que é facultado aos juízes, órgãos julgadores e presidentes dos tribunais do trabalho conceder o benefício da justiça gratuita àqueles que perceberem salário igual ou inferior a 40% do limite máximo dos benefícios do RGPS. Já o parágrafo 4º prevê que o benefício também poderá ser concedido àqueles que comprovarem insuficiência de recursos para o pagamento das custas do processo, independentemente do valor salarial.

    Essa mudança paradigmática gerou intenso debate jurídico, dividindo a doutrina e a jurisprudência trabalhista. De um lado, argumenta-se que os novos critérios conferem maior segurança jurídica e evitam abusos na concessão do benefício. De outro, sustenta-se que as restrições impostas podem violar o direito fundamental de acesso à justiça.

    Posicionamentos divergentes no STF

    O julgamento no Supremo revela a complexidade da matéria. Cinco ministros já se posicionaram pela fixação de um critério uniforme para todos os ramos do Judiciário, estabelecendo que pessoas com renda mensal de até R$ 5.000,00 teriam direito à gratuidade processual. Essa corrente busca harmonizar o tratamento da matéria, evitando disparidades entre as diferentes esferas judiciais.

    O ministro Edson Fachin, relator do processo, adotou posicionamento distinto, defendendo que a autodeclaração de hipossuficiência seria suficiente especificamente para a Justiça do Trabalho. Sua tese considera as peculiaridades da relação laboral e o princípio protetivo que norteia o Direito do Trabalho, reconhecendo a vulnerabilidade econômica presumida do trabalhador.

    A divergência reflete duas visões sobre o equilíbrio entre o acesso à justiça e a necessidade de critérios objetivos para evitar a litigância irresponsável. Enquanto a primeira corrente busca uniformização e previsibilidade, a segunda privilegia a especificidade do Direito do Trabalho e sua função social.

    Argumentos das partes no processo

    A Consif, autora da ação, sustenta que as alterações promovidas pela reforma trabalhista são plenamente constitucionais. Segundo a entidade, a exigência de comprovação concreta da insuficiência financeira atende ao comando constitucional do artigo 5º, LXXIV, que condiciona a assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos.

    A Advocacia-Geral da União acompanha esse entendimento, argumentando que os critérios objetivos instituídos pela reforma romperam com a lógica de presunção automática de pobreza. A AGU defende que a concessão irrestrita da gratuidade pode estimular demandas infundadas e comprometer a eficiência do sistema judiciário trabalhista.

    Por outro lado, entidades representativas dos trabalhadores, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), defendem interpretação mais flexível dos dispositivos. Argumentam que os critérios não podem se transformar em barreiras econômicas ao direito fundamental de ação, especialmente considerando a natureza alimentar dos créditos trabalhistas e a hipossuficiência do trabalhador.

    Implicações práticas

    A decisão do STF terá impacto direto na atuação de advogados trabalhistas e no acesso dos trabalhadores ao Judiciário. Caso prevaleça a tese mais restritiva, trabalhadores com salários superiores a R$ 3.390,22 precisarão comprovar efetivamente sua incapacidade financeira para arcar com as custas processuais, o que pode incluir a apresentação de documentos como extratos bancários, comprovantes de despesas essenciais e declarações de imposto de renda.

    Para os escritórios de advocacia, a definição clara dos critérios permitirá melhor orientação aos clientes sobre os riscos processuais. A possibilidade de condenação em custas e honorários sucumbenciais, introduzida pela reforma trabalhista, torna ainda mais crucial a correta avaliação da elegibilidade para o benefício da gratuidade.

    Do ponto de vista dos empregadores, critérios mais objetivos podem reduzir o número de ações temerárias, mas também existe o risco de legitimar demandas justas serem obstaculizadas por barreiras econômicas. O equilíbrio entre esses interesses será fundamental para a efetividade da prestação jurisdicional trabalhista.

    Aspectos constitucionais e o direito fundamental de acesso à justiça

    A questão central do julgamento envolve a interpretação do artigo 5º, LXXIV, da Constituição Federal, que assegura assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos. O debate gira em torno do significado e extensão do termo comprovação.

    A jurisprudência do STF historicamente tem reconhecido que o acesso à justiça não pode ser obstaculizado por barreiras econômicas desarrazoadas. O princípio da inafastabilidade da jurisdição, previsto no artigo 5º, XXXV, da CF/88, deve ser harmonizado com a necessidade de critérios objetivos para evitar abusos.

    A especificidade da Justiça do Trabalho, que lida com direitos de natureza alimentar e relações marcadas pela desigualdade econômica entre as partes, adiciona complexidade à análise. O princípio da proteção ao trabalhador, basilar no Direito do Trabalho, pode justificar tratamento diferenciado na concessão da gratuidade processual.

    Conclusão

    O julgamento em curso no STF representa momento decisivo para a definição dos contornos do acesso à justiça na esfera trabalhista pós-reforma. A decisão da Corte estabelecerá importante precedente sobre o equilíbrio entre a necessidade de critérios objetivos para concessão da gratuidade e a garantia constitucional de acesso ao Judiciário.

    Independentemente do resultado, será fundamental que a interpretação adotada preserve a efetividade da tutela jurisdicional trabalhista, sem criar obstáculos intransponíveis aos trabalhadores economicamente vulneráveis. O desafio está em construir solução que harmonize segurança jurídica, eficiência processual e proteção aos direitos fundamentais, mantendo o delicado equilíbrio que caracteriza as relações de trabalho no ordenamento jurídico brasileiro.


    Fonte: Este artigo foi elaborado com base na matéria publicada em , disponível em .

    Acesso à Justiça
    gratuidade processual
    hipossuficiência
    Justiça do Trabalho
    reforma trabalhista
    STF